Movimento dos Barcos

Movimento dos barcos

Agora, em Tunis, vejo da minha janela o movimento dos barcos. Muitos saem, escapam da crise, da guerra, da fome, da sede – sofrem a humilhação dos deserdados da terra, os injeitados, os esquecidos que se fazem lembrar, insistindo em viver. Nas margens do medo são açoitados, flagelados, expulsos das fronteiras do admirável mundo dos ricos. Violentadas, as mulheres concebem filhos revoltados, furiosos, enlouquecidos pela dor da rejeição paterna, só as mães são fortes bastante para amá-los. São as metáforas dos últimos do mundo com uma vida inteira para morrer de solidão.

O outros chegam – os turistas – felizes, bem-vindos, ansiosamente esperados, acolhidos com sorrisos humildes e a esperança de que tudo melhore que só os pobres têm. As fronteiras são arcos da vitória, portas da celebração. Os homens vêm em hordas, câmeras fotográficas à posto – para sempre as mesmas fotos, os mesmos museus, as mesmas praias e o mesmo mar. As mulheres, sempre ávidas de shopping centers e o exotismo das noites imemoráveis, não estão grávidas da violência e da rejeição, estão prenhes do vazio de uma vida de vitrines.

Este é o perverso movimento dos barcos…

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