Montevideana

 

Vitória na Copa América

Minha primeira fantasia de viajeira foi Montevidéu. Naquele tempo a cidade estava quieta e cheia de penumbras. Era triste e apequenada pelo medo e eu a sentia tremer às margens do rio da Prata como banhista  que havia acabado de tomar um grande caldo…

 

A cidade era mesmo tristonha – ruas desertas, casario muito antigo e pessoas que passavam pela rambla ou pela 18 de Julio com um ar “de quem quer partir”. Naquele tempo muitos partiram.

 

Estou recordando os tempos da ditadura uruguaia como tantas ou todas deixam as cidades vazias e o povo cabisbaixo. Mesmo assim gostei de Montevidéu. Esses sentimentos tão profundos e misteriosos que não se explicam.

 

Confesso que tenho um coração vagabundo, aprecio muito Roma, mas não é preciso explicar, Flaubert, Goethe, Jung, Byron, só para citar alguns clássicos, já o fizeram.

Gosto também de Praga que tem uma luz radiante e uma cerveja de se tomar quente. Budapeste também, pois tem duplo encanto: o de Buda e o de Peste que se refletem divida sobre  o Danúbio.

Para chegar mais perto tem Buenos Aires que conta em Borges seu cronista mais famoso, sem falar nas letras de tango que choram todas as dores e penas dos argentinos com o langor e a elegância de tantas galerias, livrarias e vitrines do século passado.

Mas Montevidéu é o primeiro amor e  amor à primeira vista. Apesar de tê-la conhecido em tempos de chumbo encontrei-me nesse doce remanso à beira rio.

 

Lembro-me quando vi pela primeira vez a praia de Carrasco. Intrigava-me um nome tão severo para um rio mar tão sereno.

 

Pocitos me levou de volta à infância nas praias da minha pequena cidade de pescadores. Apesar de já naqueles tempos o bairro era povoado de prédios altos e salpicados de pracinhas, onde velhinhas e seus netinhos iam tomar sol e  mate com “masitas”.

 

O espetáculo mais surpreendente e intrigante naquele tempo do meu grande amor pela cidade e grande ignorância etnológica, era observar os montevideanos nos fins de semana passeando na rambla abraçados com seus “termos” e suas “bombillas” , acessório até hoje inseparaveis da figura do uruguaio. Lá se foram as bombachas, os cavalos pimpantes e as boleaderas com os tempos modernos, mas a liturgia do mate permanece intacta.

Pensei comigo nessa época, essa é a cidade em que gostaria de viver. A dimensão é humana, as pessoas são serenas e doces e sendo muito dignas têm uma disponibilidade para o outro e para a vida que não conheci em nenhum outro lugar. Todos cuidam de  todos e há sempre um ar familiar no olhar que cruza com o seu na rua, na praça ou na praia.

Pza Constituición

 

Poucos anos depois fui morar em Montevidéu, já meio esquecida dos tempos aventureiros e do desejo expresso sem muita esperança em  que conheci a cidade, chegando de mochila e com pouco dinheiro. Agora vinha como mãe de família, e escolhemos primeiro o bairro de Punta Carretas para morar porque tinha apartamentos lindos  e os aluguéis eram mais baratos pela vizinhança com a prisão de presos políticos, dizia a lenda que estavam  ali os chefões dos Tupamaros. Quando tínhamos que passar por perto cruzamos a rua e só faltávamos caminhar na ponta dos pés para não perturbar a paz sepulcral da tortura…

Quem diria, triste ironia, hoje, Punta Carretas é um elegante shopping Center, templo do consumo com McDonald’s e “otras cositas”. Mas logo ao lado descendo a Boulevar Artigas ainda está lá imponente e firme o Golf Club e na rambla Mahtma Ghandi a criançada que pedala e os quarentões que fazem jogging e as madames que passeiam seus cachorrinhos.

Mais adiante está a neoclássica Plaza Gomensoro, uma jóia encrava às margens do rio. Há ainda o coreto, os bancos e as balaustradas torneadas bem ao gosto da belle èpoque.

Entrando Pocitos adentro vamos chegar a Villa Biarritz, que os locais chamam vijabiáriz e é uma festa aos sábados, dia de feira e choripanes. (um delicioso sanduiche de pão de cachorro quente com umas lingüiças maravilhosas, especialmente se forem as extra Cativelli).

Voltando para a Playa Ramirez chegamos ao Parque Rodó – encanto e alegria dos meus filhos quando lá chegamos pela primeira vez, porque além da enorme área verde com feira aos domingos com os imbatíveis choripanes, há também um parque de diversão com carrossel, trem fantasma, e todos esses brinquedos que em Montevidéu ainda fazem a alegria.

Teatro de Verão

Ao lado, numa elevação que se desvela na frente a praia ao fundo o Cassino, construção contemporânea do Hotel Copacabana Palace e do mesmo estilo, hoje sede do Mercosul, está o Teatro de Verano e o complexo escultural que mais me emociona na cidade. Ele é uma massa de bronze e se chama Nuevos Rumbos, uma escultura que representa um casal gaucho, e não gaúcho (estes são os nossos do Rio Grande do Sul e não tiveram a mesma sorte de serem lembrados em tão inspirada obra), iconografia emblemática que forjou a identidade uruguaia, com os camponeses dos pampas, desbravadores que enfrentaram ventos e temperaturas polares para domar uma terra áspera, solitária , mas cheia de promessas.

Nuevos Rumbos

A obra é assinada por José Belloni, uruguaio, nascido em 1882. O monumento foi inaugurado em dezembro de 1948, assentado em frente a Rambla Pres. Wilson. O material é forja em bronze com base de granito cinza.

O mais comovente nesta obra é a exatidão da mensagem dos novos rumos. Um gaucho à cavalo com uma mão  segura as rédeas de sua montaria e com a outra em posição de viseira escrutina o horizonte, metáfora dos novos rumos, do futuro, montada na garupa  está a “chinita”  que o abraça ternamente em atitude de carinho e entrega, com fé e esperança no futuro que seu companheiro vislumbra para ambos… Fé e esperança, coragem e lealdade virtudes que fizeram do gaucho símbolo da identidade uruguaia.

 

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Uma resposta para Montevideana

  1. sescosteguy disse:

    Saudades da nossa Montevidéo, país pequeno, “pero cumpridor”, como dizem…

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