Líbia, a rebelde

Leptis Magna - para onde Adriano queria transferir a capital do Império Romano

 

“Pourquoi ce vide aprés la joie

Ce néant qui fut une ville

Qui repondra?

Rien remplace le chant de poètes

Et disperse les ames jadis rassemblées” Sidi Mahrez

Teatro de Sabrata

 

Jamais e nulle part, dans une aire assi restraint e dans un interval de temp si bref, une telle fermentation des esprits, une telle production de richesse n’a pu être observer”

Esta é a observação de Paul Valery quando esteve no norte da África e conheceu a Cirenaica e a Tripolitânia…hoje território líbio.

via do Forum de Cirene

 

Afirma André Laronde “Quanto mais longe vamos no tempo, a Líbia aparece sempre como um dos centros mais importantes da geopolítica mediterrânea”…

O país foi  centro de cultura e ciência desde a antiguidade, Theodoso dirigiu uma escola de matemática em Cirene.Havia aí uma escola de medicina e uma academia de poesia e geografia.

Foi encontrada em Cirene a escultura grega mais intacta de Afrodite, símbolo da beleza, hoje no Museu Nacional das Termas Romanas, o grupo das 3 Graças e o maior templo grego de Zeus fora da Grécia.

Por Sabrata passou todo o ouro em pó consumido no império romano, o marfim, as plumas de avestruz e os animais selvagens para os circos da Roma imperial. Ela evoca o gosto africano por uma ornamentação faustosa.

Arco das sibilas

 

Leptis Magna, embelezada por Adriano, impressionado com as riquezas da terra, rivaliza em importância na era clássica a Palmira, Éfesos e até Roma.

P1020382

Strabon, geógrafo grego, compara a África do Norte com a pele de um leopardo: “vastas extensões de deserto ocre, animadas por manchas de ocupação humana esparsa”. Um afresco que até hoje se adapta perfeitamente à Líbia.

Agora, tudo que se vê são escombros, um povo amedrontado e uma sociedade desfeita, dividida entre o medo do ditador do passado e os meninos de metralhadora de hoje.

Bab Al ziziah, o bunker de Kadafi

 

Enquanto, os homens, as mulheres e as crianças, a famosa população civil continua sendo alvo do oportunismo de uns e da conveniência de outros, arraigados a uma cultura de corrupção e destruição da população despreparada e ignorante que não entendeu até hoje porque tudo isso está acontecendo com eles.

Grafiti do mítico ex-líder

 

Durante a semana que estive lá para matar a saudade dos meus amigos líbios dos quais me sinto hoje irmã, ouvi tiroteios constantes todas as noites, que nem mesmo as pessoas sabem o porquê e da onde vêm, mas há sempre um rebelde “après la lettre”, que voltou do Canadá ou da Inglaterra ontem para dizer que “agora nós estamos livres e somos um povo feliz e esses tiroteios são uma maneira de festejar a nossa liberdade… que o tirano não vai mais voltar”. Os mortos desta guerra de liberação são feitos por bala perdida pois a população, que não conhecia nem arma branca antes, agora está toda armada e mal sabe o que fazer com um armamento pesado e de precisão que os deslumbram e os matam ao  mesmo tempo.

Traoré, professor da Escola do Mali, hoje fazendo pão para sobreviver

Sempre soube que havia um terrível racismo dos líbios brancos contra os imigrantes africanos subsaharianos, mas nunca vi com tanta evidência a perseguição, a intolerância e os maus-tratos que presenciei nestes últimos dias contra os africanos. A situação política da Líbia está degenerando rapidamente para uma guerra civil de longo prazo, que os protetores da população civil não vão poder e nem se interessar em resolver.

Ali, meu irmão líbio, meu anjo da guarda

Voltei à Líbia para abraçar uma família que deixei lá, principalmente, os grandes irmãos Ali, Maria e Traoré e todos os funcionários-heróis que têm nos ajudado a manter a embaixada íntegra e têm sido de uma lealdade exemplar com o Brasil.

Resta-me só a fé de que o que é de Cesar é sempre dado a Cesar, mas que o cordeiro de Deus ainda vai nos dar a verdadeira paz… a paz de Cristo.

 

Trípoli era um canteiro de obras, hoje é um campo de escombros

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