Os Condenados da Terra

Foto de Inma Marti

Foto de Inma Marti - Askalo e seu bebê

Os condenados da terra. Homenagem a Franz Fanon, profeta e filósofo africano que completa 50 de sua desaparição.

“Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” Lucas 1, 52-55

Conheci Askalo em Trípoli, vai fazer um ano. Era uma refugiada eritréia, com 24 anos, formada em farmácia. Havia chegado à Líbia quase junto comigo, ela, à pé, numa viagem que durou muitos meses, fugindo da situação difícil pela qual passava seu país. Eu, para trabalhar na embaixada do Brasil em Trípoli, carregando a curiosidade e  a esperança de conhecer mais um país.

Encontrei-a através das missionárias da Paróquia de São Francisco, que tentavam fazer milagres, acolhendo os milhares de africanos que todo dia chegavam a Líbia em busca de abrigo e ajuda, alguns fugiam da fome, outros da seca e muitos, como Askalo, fugiam de guerras políticas  que assolavam o seu pequeno e sofrido país.

Pensávamos em reunir as mulheres da colônia brasileira para recolher fundos e ajudar essas imigrantes, entre elas Askalo, a ter condições de viver uma vida mais digna e protegê-las de uma situação adversa: a de ser mãe solteira em um país tão conservador que condenava mulheres nesta situação a viverem segregadas, como há séculos,  e separadas de seus filhos.

As irmãs da paróquia conseguiam documentos com a solidariedade dos homens eritreus que reconheciam essas crianças como seus filhos e ajudavam as irmãs a protegê-las e mantê-las em lugares seguros com seus filhos. Nós, algumas mulheres brasileiras e portuguesas, estávamos organizando com as irmãs um serviço de apoio a essas mães solteiras, quando aconteceu o golpe na Líbia.

A estória… um verdadeiro prelúdio de Natal.

Uma mulher que sai sozinha de um país como a Eritréia e se mete em uma caravana, enfrentando vários meses  de viagem à pé, de fome, sede, cansaço e violência, chega quase sempre grávida por violação sexual durante a viagem ou em alguma fronteira. Na tradição desses países mulher sozinha e longe de casa é sempre mercadoria barata. Ela me contou que quando chegou à fronteira da Líbia foi separada do grupo em que viajava com mais algumas mulheres e  encerrada em um quarto e seviciada por uma semana. Já chegou a Trípoli grávida de alguns meses. Mesmo assim teve a coragem de assumir o seu filho, contra a sociedade local que não aceita mãe solteira e as dificuldades de ter um filho sozinha.

Esta era, na época, a situação de algumas dezenas de mulheres que as missionárias da paróquia de São Francisco tentavam ajudar.

O milagre do Advento acontece sempre e  Askalo e seu filho estão aí para afirmá-lo, apesar de toda a sociedade consumista que finge ignorar o grande evento do nascimento de uma criança pobre e sua mãe, esquecidas em uma caverna que veio fazer a vontade de Deus e salvar o mundo.

Askalo e seu filho também tiveram a mesma sorte do menino e sua mãe que há mais de dois mil anos passaram pela terra. Askalo mais uma vez tentou fugir, embarcando para Itália, aonde nunca chegou, pois o barco afundou nas costas da Sicilia, levando para as profundezas do mar Askalo e seu bebê.

Deus assistiu todo medo, todo sofrimento, todo abandono que esta mãe e esta criança sofreram, só ele sabe e viu a tormenta, o flagelo e a via crucis deles e de todos os que, aterrorizados,  mais uma vez foram crucificados pela arrogância do poder, a ambição de muitos e a omissão de todos.

Neste Natal pensemos em todas as crianças e mulheres que morreram ou sobrevivem em condições infra-humanas nos campos de refugiados na fronteira da Tunísia com Líbia, população civil, pretexto para todas as intervenções e, que continuam a ser sempre os condenados da terra…

Anúncios
Esse post foi publicado em Ideias. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Os Condenados da Terra

  1. Gonzalo Gomensoro Fraschini disse:

    Como fere a dor humana… mas peco para nunca ficar indiferente, prefiro a dor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s