A Marciana que lê jornal

Cheguei à Tunísia em março deste ano, vinda de um país vizinho: a Líbia. Mas tudo era desigual: língua, costumes, pessoas. Havia algumas semelhanças que só muito mais tarde pude perceber, mas nenhuma delas determinantes para a comparação entre os dois países.

Estava atordoada com os últimos acontecimentos em Trípoli, e no princípio nada parecia fazer sentido para mim. A dor e a raiva embotavam meus sentidos, e o sofrimento de um povo inteiro, vendo seu país ser destruído por ambição e inconsciência, cegavam-me completamente.

Nos primeiros dias, a beleza do golfo de Tunis e o carinho dos que me receberam foram amenizando as impressões e os sentimentos da guerra. Precisávamos colocar a vida para funcionar e não podia ser de outro jeito e nem ser adiada. Procuramos um lugar para morar, como todos que fugiam de Trípoli, e viver em segurança. Escolhemos o bairro de La Marsa, entre o bairro turístico de Sidi Bousaid e Gamarth e suas colinas que vão dar no mar.

Decididamente, este não era um lugar para refugiados e sim para velhinhos em férias: clima ameno, população acolhedora e sorridente, uma orla marítima —a Corniche de la Marsa— cheia de cafés e restaurantes, bancas de jornais com publicações em francês, italiano e inglês, livrarias, cinemas. A primavera enchia a atmosfera com o perfume do jasmim tunisino…

Nos primeiros dias, não entendi nada, apesar de algumas pessoas que falavam árabe entre si, todos se dirigiam a nós em francês e com uma doçura que esta língua não tem do outro lado do Mediterrâneo… Como em um país árabe em plena revolução as pessoas e a vida se comportavam de maneira tão diferente do que no lugar de onde eu tinha vindo? É certo: os países não são iguais, as situações são diferentes. Mas era muito diferente.

Senti-me em estranha, vivendo em La Marsa, sair de manhã caminhar pela Corniche, sentar em um café, comprar o jornal, conversar com a balconista do supermercado e compartilhar com a sociedade masculina, o restaurante, o café e as calçadas da rua, pareceu-me ter caído de outro planeta. Eu me sentia em la Marsa a marciana que lia jornal, depois de quase dois anos sem ter acesso a nenhum tipo de publicação diária. Também conheci um livreiro da livraria Mille Feuille que, além de conversar comigo, me recomendou vários livros de literatura tunisina e também música, culinária, tudo em uma língua que eu podia compreender e que permitia saciar minha fome de informação sobre o lugar onde estava vivendo.

Foi realmente um deslumbramento, pois no país vizinho, além de não poder me comunicar com nenhum local, ninguém falava outra língua que não fosse árabe. As mulheres estrangeiras eram simplesmente invisíveis para os locais e as mulheres líbias, simplesmente não saiam de casa. Pela primeira vez em tantos anos no exterior, não consegui saber o que aquele povo queria ou pensava, e se alguma coisa conheci foi através do meu grande amigo Ali e de Maria, equatoriana, que vive no país há 20 anos. Nunca consegui comprar um livro, todos eram impressos em árabe. O jornal em inglês era um folhetim mal escrito, editado pelos estrangeiros das embaixadas locais… notícia de segunda mão, que para mim é pior do que comida fria.

Foi por comparação que percebi que nada é igual neste mundo, muito menos no mundo árabe. Não existiu uma Primavera Árabe: contos da Carochinha para tornar mais palatável a desestabilização do mundo árabe e para distrair a opinião pública sobre a iminente queda das potências ocidentais.

Comecei a ler jornais, revistas, livros com a voracidade de uma traça de biblioteca. Eu me tornei a marciana que lê. Também conversava com as pessoas na rua sobre o processo político e as eleições na Tunísia; cheguei a comprar broche e camiseta de um partido de elite, não por convicção, mas para me sentir menos marciana, alienígena naquele processo. Afinal, estava há muito tempo me sentindo a própria ET na vida, desde que chegara à Líbia. Apesar de tentar engajar-me na paróquia com os trabalhos de assistência das irmãs e dos africanos, estava sempre na periferia da sociedade, sempre entre estrangeiros.

Aos poucos a marciana se transformou, com o outono, em uma crisálida, e depois em pleno inverno cálido e marinho em uma “papillon marsoise” (marsois: gentílico de quem nasce em La Marsa).

Deixei de ser marciana para ser “marsoise” agora na hora de deixar La Marsa, acontece a próxima etapa da “papillon marsoise”: o vôo de despedida com mais firmeza, mais serenidade e esperança, e a agradecida pelas dádivas da vida em La Marsa.

 

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Uma resposta para A Marciana que lê jornal

  1. Gonzalo Gomensoro Fraschini disse:

    É tao você tudo que você escreve, é tao autêntica a sua escrita que parece que estou assistindo a um documental filmado. Achei muito lindo, adoro lê-la pois minha única ansiedade é que nao quero que termine, quero continuar lendo pois é uma leitura cheia de sensacoes ao ponto de deixar o leitor quase embriagado. Obrigado por estes presentes, amiga!!

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