A Estrangeira

 

Lua sobre Niterói – Icaraí

“Ogni luogo nel quale arriviamo in un viaggio é una sorta di radiografia di noi stessi” Antonio Tabucchi

Devo explicar a minha abstinência de escrita todos esses meses e acrescentar algumas avaliações existenciais desta nova mudança. Não posso, ainda, fazer nenhuma apreciação sobre o novo país: as Filipinas. Estou ainda reaprendendo a viver neste novo espaço/tempo e este apredizado leva tempo e ocupa todo o espaço da minha concentração, disciplina e método. Preciso recomeçar do nada, como tantas vez o fiz. Este intervalo entre vida anterior e a vida que se gesta para o futuro eu chamava antes de luto, agora também cambiou para um tempo existencial do si mesmo, um mergulho em apinéia no eu profundo para voltar à tona com outro fôlego, outra carga emocional, afetiva e espiritual, enriquecida de contemplação, criatividade e compreensão para poder recapacitar a memóra, refazer os tempos, analisar e entender o novo, a nova vida e projetar o recomeço, estudar as novas circunstância para não ser vencida por elas, e reestruturar a capacidade de aprender.
Reaprender tudo: a olhar para redimensionar as novas paisagens, orientar-se nos novos horizontes, memorizar os novos limites… a escutar, ato fundamental para aprender, para aceitar a lição de humildade de não saber… a pensar para ter a capacidade de se surpreencer… a caminhar para empreender novos caminhos, traçar novas metas e ter a paciência de recomeçar a cada erro, a cada desvio… a falar, pois a língua é nova e traduz cultura, comportamento e atitudes diferentes que devem ser compreendidas e algumas assumidas (mas nem todas para não violentar o ser diferente, a especificidade do si mesmo)… a degustar para entender o gosto do novo e ensinar o corpo a reorientar o seu mecanismo de adaptação e acertar o relógio biológico, pois na natureza tudo se transforma… a olfatar porque cada lugar tem seus cheiros, seus aromas, seus odores: uma forma de memória nova e velha que se fundem e se atualizam no caminho do conhecimento,associando tempos, trazendo recordações do passado e já passando à limpo o presente… a tocar, observando muito para reaprender as semióticas da comunicação ( se entre nós as efusões de apreço se fazem com dois beijos e abraços, em outras latitudes isto pode ofender e violentar o espaço íntimo e deve ser respeitado; enquanto entre nós cumprimentar é um vigoroso aperto de mão, em outras culturas este gesto não tem nenhum sentido e sim o inclinar profundamente a cabeça)…enfim redescubrir formas diversas de se reconstruir para viver, sem se omitir, sem se negar.
Este trabalho todo faz parte de um laborioso processo que pode levar de seis meses a um ano. Assim como acostumar o corpo a outros fusos horários pode levar de dois a quinze dias, dependendo das latitudes.
Isto posto, ser mais uma vez estrangeira, no moto-continuo do auto-exílio, na aventura de conhecer, de desvendar novos mundos, criar mais uma ponte para o outro, buscar e fazer o longe/perto, o desconhecido/ amigo, criar a interlocução de universos e mundos distantes, cruzar a terceira margem do rio.

Neste tempo de refazer caminhos antigos, viagens esquecidas para conhecer as verdadeiras vias deste andar peregrino, neste entre-ato que estou vivendo, agora que começa o tempo litúrgico do advento, o meu é ainda o da quaresma, porque ainda permaneço na mansão dos mortos, preparando a prometida ressurreição, o eterno retorno. Preparando a vida nova, descobri que o ser estrangeiro é uma condição interior que se carrega e se dispara com o misterioso gatilho emocional de alguma vivência muito forte na primeira infância. Comigo aconteceu entre 5 e 6 anos, quando em conversa de almoço de um domingo em família (lembrei-me nas minhas últimas meditações depurativa) de que algum parente fez uma brincadeira ingênua de dizer que eu não era da família, pois minha mãe tinha me achado no lixo, esta brincadeira foi repetida ainda algumas outras vezes, dessa vez pelas crianças da casa, que logo tornou-se um estigma de exclusão que fez de mim uma estrangeira, uma diferente que me acompanha até hoje, e na adolescência, tempo em que a auto-afirmação, me fez buscar com obsseção os livros até a adicção para curar o isolamento familiar e a solidão que se agravava a cada vez que um parente ou conhecido reconhecia o meu modo estranho e me acusava até de pretensiosa por  querer saber e ler demais. Este vício condenou-me a ter uma única amiga durante todo o período escolar. Amiga, hoje, verdadeira alma irmã, amorosamente diferentes, construimos uma linguagem de comunicação e uma fraternidade que dura ainda, sempre renovada a cada encontro.
A outra consequência desta adicção foi viver radicalmente esta exclusão tornando-me uma eterna estrangeira, afastando-me cada vez mais da terra e da gente que deveria ser minha. Não me reconheço no lugar em que nasci, nem tampouco consigo estabelecer qualquer contato com a minha família de origem, apesar de amá-los de longe, e sofrer a verdadeira saudade: sentir falta do que nunca tive.

Nem por isso penso que a vida me deve nada, pelo contrário tenho dela muito mais do que preciso.

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