Dignidade Humana

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Dignidade Humana

Para Cris e Gerson que nos ensinaram a sonhar com um mundo melhor, para as Brasilianas e, à Pastoral da Criança que nos dá régua e compasso para encontrar o caminho.

 

Há três anos que o tufão Ondoy passou por Metro Manila, destruindo e ceifando milhares de vida. Justamente, neste aniversário da catástrofe e dor fomos  participar da celebração da vida com a Irmã Terezinha  e visitar uma das milhares de famílias atingidas pelas inundações que deixaram tantos mortos e desabrigados e nos deparamos com essa estória.

ondoyA Família Austria

No dia 28 de novembro de 2010 a família Austria, composta de oito filhos, pai e mãe,  vivia abrigada embaixo de um viaduto à beira do rio Pasig, na  Mindanao Av,em Metro Manilaeles engrossam as estatísticas dos 42% dos filipinos que vivem com menos de U$2 por dia. Era um pouco mais do que isto que ganhava Jun, o pai desta família; P5000,00 pesos por mês, (U$125,00). Mesmo assim, Joy, a filha mais velha, havia entrado na faculdade de administração de empresas e Jun sonhava ver todos os filhos formados. Joy seria só a primeira a entrar na universidade, depois aos poucos, quando ela completasse os estudos e pudesse trabalhar para ajudar, viriam os outros, pois é o sonho de todo filipino, até o mais miserável deles, (e há tantos), que os filhos estudem e cheguem a universidade.O último filho da família havia acabado de nascer em maio, o oitavo, todos vivendo debaixo do viaduto com mais 30 famílias.

No dia 28 de novembro de 2010, as famílias que viviam embaixo do viaduto  foram varridas pelas águas do rio  em fração de minutos. Não houve tempo de pensar em nada, só sobreviver a fúria das águas. Jun,com heroísmo de pai, colocou à salvo toda família e continuou ajudando a outras que tentavam vencer a morte.

A família e tantas outras do viaduto do Rio Pasig sobreviveram, mas Jun morreu meses depois vítima de leptospirose, contraída na época da enchente.

No ano seguinte, após perambular por igrejas e acampamentos, as famílias foram trasladadas pelo governo para um conjunto habitacional em Montalban a duas horas de Metro Manila. Os Austrias, agora, sem o pai, apesar de protegida no cubículo construído pelo governo, não sabiam como viver sem o seu herói.

A mãe se desesperou e desapareceu, deixando Joy com sete irmãos menores com idades entre 17 anos a 5 meses de idade.

Joy abandonou a tão sonhada faculdade na metade do caminho, teria que cuidar dos irmãos sem saber como.

A Pastoral da Criança que já fazia um trabalho de assistência a essa população, começou a apoiar Joy com alguns alimentos e orientá-la no cuidado das crianças, mas a mãe não aparecia e era cada vez mais difícil sustentar aquela família que agora não tinha nem o pouco por dia do salário do pai para sustentá-la, nem o cuidado da mãe que havia se desequilibrado com a tragédia que os atingira.

Ano passado, um grupo de brasileiras, as Brasilianas, que começou a apoiar a Pastoral, foi visitar a comunidade transferida para Montalban, e se comoveu principalmente com a estória da família de Jun que estava sendo cuidada por uma menina de 20 anos que parecia ter 15. O olhar perdido, o corpo esquálido, Joy levava nas ancas o irmão mais novo, um menino de 2 anos que mais parecia um bebe de oito meses que sobreviveu à custa dos cuidados das voluntárias da Pastoral e do desvelo dessa irmã que jamais  abandonou os seus irmãos.

Montalban 001

Assim que um dos brasileiros do grupo soube da tragédia, prontificou-se a apadrinhar a família e enviar para eles por mês, não os P 5000,00  com que eles estavam acostumados a viver, mas P10.000,00 para que Joy pudesse voltar a faculdade e os menores pudessem ser cuidados por alguém, enquanto ela estivesse estudando.

Comunidade de Montalban – Celebração da Vida PCI

Um ano depois, voltamos para ver como estava Joy e seus irmãos e tivemos a grata surpresa de saber que a mãe, Mercy, tinha voltado e já estava trabalhando, vendendo verduras na rua. Joy voltou a estudar e está terminando os estudos ano que vem, e a outra irmã, que está esperando para também entrar na universidade, vai poder  também realizar o seu sonho.

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Manila Revisited

Lua sobre Niterói - Icaraí

Lua sobre Niterói – Icaraí

Mãe só se perde uma vez. É uma verdadeira revolução na vida. O sentir sem sentido, o abraço da finitude e dos limites da vida. Foi tudo muito rápido, mas muito longo, há dez anos mamãe sofria de uma e outra doença, entre hospital e casa, vida e morte.
Eu também no último período de doença dela, no começo deste ano, vi bem de perto, senão a morte o medo que ela provoca quando nos ronda com uma doença. Tudo acumulado, o mundo rodopiou aos meus pés, vivi de vertigem em vertigem hora a notícia do estado da mamãe, hora a doença que me sufocava.
Até que decidimos (Ney e eu) irmos para o Brasil, cuidar do meu corpo e da minha alma, visitando mamãe. Cheguei a tempo para me curar e para dar o meu último adeus à mamãe depois de tantas despedidas ao longo da vida.
Passamos três meses longe de Manila. Houve o impacto de ver um Brasil diferente; corroendo-se na mudança e no espanto de um tempo violento e sem rumo, com as devidas ressalvas para as manipulações pré-eleitoreiras do oportunismo mediático.
Depois veio a trégua, a visita da Stella e a viagem a Montevidéu: asilo no paraíso. A ida a Roma para devolver Stella e a volta ao Brasil.
E agora, outra vez, Manila e tufões, chuvas tropicais e águas sempre intensas. Redescubro uma outra cidade, mais molhada e menos quente, acostumo-me aos poucos com a dinâmica americanizada dos shopping centers um colado no outro, da elite enlouquecida de poder e dinheiro e um povo doce e risonho que não sabe dizer não. E tem tanta dificuldade em se fazer valer e ser. Enfim, mais um país da periferia do mundo vitimado pela globalização, pelas mentiras de um tempo fictício, cheio de hipocrisias e falsas convicções: democracia, marketing, midias, modas ….

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Terra

Montevidéu julho 2011 111O mapa da minha terra está desenhado no meu corpo, fragmentado pelas manchas do vitiligo, ele é traçado pelos confins do exílio, pela negação do porto, a ruína da casa paterna, o abandono

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A Estrangeira

 

Lua sobre Niterói – Icaraí

“Ogni luogo nel quale arriviamo in un viaggio é una sorta di radiografia di noi stessi” Antonio Tabucchi

Devo explicar a minha abstinência de escrita todos esses meses e acrescentar algumas avaliações existenciais desta nova mudança. Não posso, ainda, fazer nenhuma apreciação sobre o novo país: as Filipinas. Estou ainda reaprendendo a viver neste novo espaço/tempo e este apredizado leva tempo e ocupa todo o espaço da minha concentração, disciplina e método. Preciso recomeçar do nada, como tantas vez o fiz. Este intervalo entre vida anterior e a vida que se gesta para o futuro eu chamava antes de luto, agora também cambiou para um tempo existencial do si mesmo, um mergulho em apinéia no eu profundo para voltar à tona com outro fôlego, outra carga emocional, afetiva e espiritual, enriquecida de contemplação, criatividade e compreensão para poder recapacitar a memóra, refazer os tempos, analisar e entender o novo, a nova vida e projetar o recomeço, estudar as novas circunstância para não ser vencida por elas, e reestruturar a capacidade de aprender.
Reaprender tudo: a olhar para redimensionar as novas paisagens, orientar-se nos novos horizontes, memorizar os novos limites… a escutar, ato fundamental para aprender, para aceitar a lição de humildade de não saber… a pensar para ter a capacidade de se surpreencer… a caminhar para empreender novos caminhos, traçar novas metas e ter a paciência de recomeçar a cada erro, a cada desvio… a falar, pois a língua é nova e traduz cultura, comportamento e atitudes diferentes que devem ser compreendidas e algumas assumidas (mas nem todas para não violentar o ser diferente, a especificidade do si mesmo)… a degustar para entender o gosto do novo e ensinar o corpo a reorientar o seu mecanismo de adaptação e acertar o relógio biológico, pois na natureza tudo se transforma… a olfatar porque cada lugar tem seus cheiros, seus aromas, seus odores: uma forma de memória nova e velha que se fundem e se atualizam no caminho do conhecimento,associando tempos, trazendo recordações do passado e já passando à limpo o presente… a tocar, observando muito para reaprender as semióticas da comunicação ( se entre nós as efusões de apreço se fazem com dois beijos e abraços, em outras latitudes isto pode ofender e violentar o espaço íntimo e deve ser respeitado; enquanto entre nós cumprimentar é um vigoroso aperto de mão, em outras culturas este gesto não tem nenhum sentido e sim o inclinar profundamente a cabeça)…enfim redescubrir formas diversas de se reconstruir para viver, sem se omitir, sem se negar.
Este trabalho todo faz parte de um laborioso processo que pode levar de seis meses a um ano. Assim como acostumar o corpo a outros fusos horários pode levar de dois a quinze dias, dependendo das latitudes.
Isto posto, ser mais uma vez estrangeira, no moto-continuo do auto-exílio, na aventura de conhecer, de desvendar novos mundos, criar mais uma ponte para o outro, buscar e fazer o longe/perto, o desconhecido/ amigo, criar a interlocução de universos e mundos distantes, cruzar a terceira margem do rio.

Neste tempo de refazer caminhos antigos, viagens esquecidas para conhecer as verdadeiras vias deste andar peregrino, neste entre-ato que estou vivendo, agora que começa o tempo litúrgico do advento, o meu é ainda o da quaresma, porque ainda permaneço na mansão dos mortos, preparando a prometida ressurreição, o eterno retorno. Preparando a vida nova, descobri que o ser estrangeiro é uma condição interior que se carrega e se dispara com o misterioso gatilho emocional de alguma vivência muito forte na primeira infância. Comigo aconteceu entre 5 e 6 anos, quando em conversa de almoço de um domingo em família (lembrei-me nas minhas últimas meditações depurativa) de que algum parente fez uma brincadeira ingênua de dizer que eu não era da família, pois minha mãe tinha me achado no lixo, esta brincadeira foi repetida ainda algumas outras vezes, dessa vez pelas crianças da casa, que logo tornou-se um estigma de exclusão que fez de mim uma estrangeira, uma diferente que me acompanha até hoje, e na adolescência, tempo em que a auto-afirmação, me fez buscar com obsseção os livros até a adicção para curar o isolamento familiar e a solidão que se agravava a cada vez que um parente ou conhecido reconhecia o meu modo estranho e me acusava até de pretensiosa por  querer saber e ler demais. Este vício condenou-me a ter uma única amiga durante todo o período escolar. Amiga, hoje, verdadeira alma irmã, amorosamente diferentes, construimos uma linguagem de comunicação e uma fraternidade que dura ainda, sempre renovada a cada encontro.
A outra consequência desta adicção foi viver radicalmente esta exclusão tornando-me uma eterna estrangeira, afastando-me cada vez mais da terra e da gente que deveria ser minha. Não me reconheço no lugar em que nasci, nem tampouco consigo estabelecer qualquer contato com a minha família de origem, apesar de amá-los de longe, e sofrer a verdadeira saudade: sentir falta do que nunca tive.

Nem por isso penso que a vida me deve nada, pelo contrário tenho dela muito mais do que preciso.

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Líbia Revisited

Revisited Líbia

Foram tempos difíceis para nós, mas acredito que não tenha sido em vão. O tempo muda, a natureza muda, o mundo muda… tudo muda e como diria Drummond, “mas de tudo resta um pouco”, nos retratos, nas migalhas de recordação que a memória permite guardar, nas ilusões que se transformam em desejos, num resquício de fim de festa, e nos afetos que carregamos e que ficam gravados a ferro e fogo no coração.

Temos muito boas lembranças dos tempos líbios e experiências enriquecedoras, todos continuam nos nossos corações, foi um momento muito fugaz, mas muito intenso e nos sentimos irmanados ao povo líbio na lembrança dos admiráveis homens e mulheres que conhecemos aí.

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Dia Internacional da Mulher

Minha porção mulher, que até então se resguardara É a porção melhor que trago em mim agora É que me faz viver

Infelizmente, a comemoração do DIM* é mesmo coisa de marca de meias finas ou cosméticos, eletrodomésticos ou flores. O prosaico mercado é que festeja com mais consumo de lixo embalado em luxo o seu grande sucesso de vendas…

E as mulheres, onde ficam nesta data? A maioria junta um bando de amigas e vai para um restaurante fazer muito barulho para esquecer que, apesar das lutas e dos sacrifícios de tantas, elas ainda são desrespeitadas, humilhadas, violentadas e infantilizadas por uma sociedade que além de machista é também consumista e transformou um evento de reflexão em uma festa tola.

Outras ainda se entristecem e relembram a situação feminina nas sociedades ditas contemporâneas: a discriminação salarial, as condições de trabalho indignas (quando há trabalho), a tão propalada violência contra as mulheres, em todas as classes sociais, a dupla jornada de trabalho, a solidão. E ainda, o desamor com que são tratadas pelos parceiros, o oportunismo de muitos deles em despejar sobre elas todas as responsabilidades familiares e ainda passar recibo “porque trabalha para sustentar a casa”, e a demagogia amorosa que mata a autoestima feminina e faz da mulher um ser humano pela metade em falsas declarações amorosas e promessa de um romantismo ultrapassado, enquanto a infidelidade desrespeitosa campeia solta e muitas delas, criadas no “ruim com ele pior sem ele” da cultura machista, não se sentem à altura de reagir, engolindo em seco e tragando lágrimas até o sacrifício da saúde e da própria vida.

Mas poucos e poucas são as que se lembram de que esta data é para recordar um dia 8 de março no fim do século XIX em que centenas de mulheres foram mortas numa fábrica, em Boston, nos Estados Unidos, por manifestarem contra as condições de trabalho e salários indignos. A fábrica foi incendiada por policiais na tentativa de obrigar as operárias a desocuparem o local. Logo depois, uma indignada população de mulheres começou a se organizar para lutar pelos direitos femininos em todo o mundo.

*Nome de uma marca de meias femininas francesas.

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Presente de Aniversário

60 anos no El Milongón, Montevidéu

Fazer 60 anos de bem com a vida e  consigo mesmo ja é um grande presente, mas comemorar o aniversario com o companheiro da vida inteira e amigos idem, num lugar que me abraça e me comove, e ainda por cima na querida companhia do Neyzinho e da Natalia é mais que presente, é regalo de Deus.

Nada melhor para mim do que estar do lado de filhos tao queridos como estes dois. Eles sao a harmonia encarnada, o otimismo transparente, a verdade que brilha nos olhinhos destes dois seres humanos iluminados. Tudo nestes dois testemunha sensibilidade e afeto, delicadeza e respeito, AFINIDADE E CUIDADO. Sao jovens, mas ja dao liçao para muito marmanjo sem nenhuma intençao, espontaneamente.
Isto tudo me faz lembrar de uma pergunta que Neyzinho me fez quando tinha 9 anos, estavamos todos sentados a mesa do jantar numa peça da casa, que hoje ja nao existe mais e que se chamava copa (uma sala intima entre a sala e a cozinha) : “Por que é que a gente nao nasce sabendo e casado?”

Na época rimos muito da ansiedade do pirralho, mas hoje tenho a resposta. Ele ja nasceu sabendo e casado, so que levou um pouquinho de tempo para descobrirmos…
Por tudo isto canto como a Violeta Parra: Gracias a la vida que me ha dado todo.
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